PARA ENTENDER OS PRINCÍPIOS ATIVOS

By mariaritabritto


Maria Rita Dias de Britto

Em artigo recentemente publicado nesta página falávamos dos princípios ativos dos produtos em lançamento no mercado. Retomo o artigo para atender as inúmeras solicitações de visitantes interessados pela matéria, buscando uma nova abordagem que os levem a entender melhor os princípios ativos e a sua inserção na cosmetologia.

Estudando a pré-história entenderemos que desde aquela época o homem vem procurando acalmar a fúria dos deuses, obter suas generosidades, aliviar suas dores e curar suas enfermidades a partir de oferendas, sacrifícios e invocações.

Por outro lado, seja como fornecedora de matéria prima ou como habitat das divindades, a natureza sempre teve presente entre os deuses e os humanos, no sentido de curar enfermidades e reduzir efeitos maléficos.

Talvez por simples empirismo ou em atendimento às recomendações de suas entidades, o homem pré-histórico era levado a mascar folhas para curar seus males. Provavelmente não sabiam explicar, mas tinham consciência de que os vegetais, animais e minerais possuíam componentes tais como venenos, calmantes, alucinógenos e cicatrizantes, capazes de agir sobre o corpo, facilitando suas vidas, aliviando suas dores e curando seus males.

Com o advento da cerâmica no período neolítico, os usos dos vegetais se ampliaram e as possibilidades de cura se renovaram a partir do cozimento de ervas para a produção de chás, óleos e extratos.

Esses conhecimentos vêm passando de geração para geração durante milênios, mas não se restringem a cada região com sua flora, sua fauna e seus medicamentos. Ao contrário, cruzam fronteiras e se multiplicam através do processo de emigração e intercâmbio cultural. O que hoje poderíamos chamar de processo de globalização.

A invenção da química, pelos árabes, no século VIII, viria a possibilitar a elaboração dos princípios ativos e conseqüente produção de remédios naturais a partir desses princípios que, em síntese, seria a extração apenas dos elementos que contribuem diretamente para a função a que se propõem, e não de todos os componentes do vegetal, animal ou mineral.

A ciência evoluiu de tal maneira que a química é capaz de sintetizar princípios ativos a partir da combinação de elementos de laboratório; não necessitando recorrer diretamente à fauna e a flora.

Neste sentido, o que existe de mais atual são as ferramentas da engenharia molecular a serviço dos princípios ativos para a produção de novos medicamentos a todo instante. Entretanto, não podemos perder de vista que o processo pré-histórico sobrevive, pois a todo instante, os chás e as ervas utilizadas pela sabedoria da cultura indígena são investigados por laboratórios para serem convertidos em medicamentos. Assim, dentre as muitas outras razões, a preservação ambiental poderá ser perfeitamente entendida como expectativa de qualidade de vida das pessoas.

Parte integrante de todo esse processo, a cosmetologia também vem contando a sua história. Uma história testemunhada pelo aroma dos extratos de embelezamento que antecederam a idade cristã, velada pelas lamas do Nilo que davam a jovialidade da pele de Cleópatra. Uma história que chegou a se misturar com excrementos nas fórmulas radicais da idade média e que mesmo sendo considerada como prática de bruxaria soube emergir com a suavidade do pó de arroz.

Como a renascer das cinzas, ou do pó e com uma postura compatível com o pensamento modernista do século XX, a cosmetologia se impõe como ciência, abandonando suas vestes de preparados caseiros e assumindo o seu caráter industrial.

Para atender a expectativa de um consumidor cada vez mais exigente, os produtos não poderiam se restringir a propostas estéticas superficiais, mas sim buscar camadas mais profundas tais como hidratação e nutrição.

Por fim, dentre as muitas mudanças da década de 80, as pesquisas em princípios ativos e matérias primas específicas em cosmetologia só viriam a contribuir para o surgimento de novos produtos com características intermediárias entre os cosméticos tradicionais e os medicamentos.

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